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Carta da Lana

O que aprendi com Maruja



Domingo 30, 20h40. O telefone toca e a voz embargada da minha mãe anuncia: “Filha, perdemos a Tia Maruja (lê-se ‘Marurra’)!” O generoso coração da espanhola que há 28 anos adotara minha família como dela resolveu descansar. Impulsivo como a dona, o fez sem aviso.

Até agora o choque e a saudade estreitam minha garganta, marejam meus olhos. Para despistá-los, busco refúgio na memória e me revejo na cozinha dela, tentando aprender a preparar delícias com a mesma competência e agilidade daquelas mãos com unhas sempre impecáveis.

Quase ouço a gargalhada escandalosa, os palavrões! As lembranças entristecem, mas, contraditoriamente, consolam. Graças a elas, dou-me conta de que eu não apenas sabia dos talentos da sra. Maruja como desfrutava deles.

E o fazia da melhor forma possível: no papel de humilde – e infelizmente esporádica – aprendiz. É a lição que essa perda me deixa: dispor-me cada vez mais a descobrir o que os outros têm de melhor, pedindo que me ajudem a cultivar em mim as mesmas capacidades.

Maruja me proporcionou isso de bom grado. Não há chance de preparar churros ou um bolo de chantilly sem senti-la ao meu lado. Já os segredos do polvo e da tortilha foram além da minha assimilação. Não há de ser nada. Fica como uma desculpa a mais para, um dia, eu reencontrar aquela “desgraciada”! Beijos enormes.


Comentado por:

03/01/2008 - 10:55