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COLUNA DE HILDA LUCAS

Visita de pêsames

A sala repleta de móveis, prataria, quadros e almofadas estava também cheia de gente. A sala que vivia na penumbra estava acesa e abria-se em janelas. Partículas de pó dançavam nos fachos de luz. As pessoas expunham rostos pálidos e ressequidos. Cheiravam a naftalina, sala e pessoas.

O velho morreu na véspera, mas na verdade não vivia há mais de 18 anos. Foi-se apagando devagar, sem alarde, sem tragédia, ligado a tubos, à base de soros e cuidados exóticos, caros. Ficava lá, num quarto onde ainda estava, numa espécie de redoma à prova de vírus, afetos e esperança. Ninguém o visitava então, ninguém o visitava, agora. Vivo ou morto ele era totalmente dispensável, invisível.

Na sala, a viúva recebia as condolências. Estava adorando o movimento. Toda arrumada, penteada e perfumada, num impecável vestido azul hortência, recebia as visitas com alegria e desenvoltura. Servia chás, doces e salgados enquanto falava da doença do marido como uma artimanha, uma vingança do falecido, que segundo explicava, sempre teve ciúmes dela ser muito mais moça que ele. A viúva acreditava piamente que a doença era uma manobra para condená-la a desperdiçar o resto da sua juventude presa a uma cama de hospital.

Coitado do morto, ninguém foi vê-lo. A notícia da sua morte foi uma surpresa para todos. Haviam se esquecido que ele vivia. Também, ele teve o mau gosto de impor a todos uma morte interminável... Morreu aos poucos, todo dia um pouquinho até não sobrar nada, nem dó, nem saudade.

Na sala as velhas numa quase algazarra falavam de dores, netos, trocavam receitas e nomes de médicos, falavam de novela e de seus cachorros, menos do morto, que teve a indelicadeza de morrer no dia do jogo de tranca. Pareciam múmias vivificadas, engomadas, empoadas, cabelos duros de laquê, batom passado fora do contorno dos lábios, colares escondidos entre as dobras do pescoço, anéis comprimidos em dedos nodosos e pérolas que pendiam opacas quase rasgando os furos de suas orelhas. Riam sem pudor e comiam gulosas enquanto esperavam ansiosas a próxima bandeja.

A viúva instalada numa poltrona acionava os empregados através de uma irritante campainha. De repente, uma idéia, uma ordem: “Preparem a mesa de jogo. Afinal, somos quatro e hoje é dia de tranca.” A decisão foi recebida com palminhas e alvoroço. “Não, não é pecado”, uma cochichou para a outra.

No meio da partida o representante do serviço funerário chegou para tratar da papelada e da remoção do corpo. Impaciente, a viúva desgrudou os olhos  das cartas do baralho e disparou: “O senhor faça o favor de sentar e esperar um pouco. Se ele não teve pressa para morrer, por que essa pressa para enterrar?”

Na sala as velhas jogavam alheias a tudo, inclusive à própria morte, que espreitava paciente, acomodada no sofá de veludo.



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09/06/2008 - 00:49



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09/06/2008 - 00:49



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08/06/2008 - 11:17