Técnicas e dicas que ajudam você a encontrar o equilíbrio no dia-a-dia
Confira nossa seleção e divirta-se!
Quantas crianças, debruçadas sobre varandas de nuvens, nos espiam viver nossas vidas confortáveis, enquanto elas, num avesso de limbo, interrompidas, pairam?
Penso nas crianças mortas, violentadas, ultrajadas... Desconheço e não sei nomear o que sinto.
Não quero a frieza das análises sociológicas, psiquiátricas, forenses. Não quero o espetáculo da tragédia. Nem detalhes sórdidos. Não quero exercitar tolerância nem anestesiar minha indignação. Não quero entender os porquês do carrasco, do pedófilo, do assassino, do torturador. Quero luto, nada mais. Não trago propostas nem bandeiras nem palanques. Apenas uma espécie de nódoa na alma.
Tenho vergonha do mal que somos capazes de fazer às nossas crianças. Você pensa, não, eu não. E eu penso, a espécie humana, sim. Tenho medo do mal que se aninha como víbora silenciosa na alma dos meus iguais. Tenho medo dessa semente que se instala como uma larva e dorme nas trevas. Você diz, não, em mim não.
E eu penso, na alma humana, sim. Nauseada penso na selvageria e na covardia com que um adulto descontrolado, enlouquecido e também brutalizado pode atingir uma criança. Você diz, não, eu não. Eu penso, a fera humana, sim. Penso na torpeza e na infâmia do gesto que fere, violenta e cala a criança indefesa, entregue, desarmada e me sinto apequenar, esmagada pela idéia do pavor e da perplexidade que esses meninos e meninas sentem ao olhar o mal nos olhos de um conhecido, de um ente querido.
Penso no espanto que o ataque provoca, na solidão e no absurdo desamparo do instante final, quando faltam os heróis, quando Deus se ausenta, quando toda ordem é invertida e todos os pactos rompidos. Penso nos olhares atônitos, nos corações gelados e nas pequenas mãos buscando socorro. Penso que crianças desconhecem as palavras compaixão, clemência, piedade e sem poder pronunciá-las apenas choram.
Penso que crianças desconhecem as palavras barbárie, malevolência, insídia e sem poder compreendê-las provam seu veneno, sua brutalidade. Penso que crianças não pensam na morte, por que morrer não é para crianças e sem sequer decifrar o brilho da foice deixam-se ceifar ainda brotos, ainda impúberes, ainda por tudo viver.
Cada vez que uma criança é morta ou violentada distanciamo-nos um pouco mais do sagrado. Ou por que reconhecemos a besta em nós ou por que não nos reconhecemos mais no Pai. Porque Ele assiste impassível à brutalidade contra a criança em nome do livre arbítrio do algoz? Porque Deus abandona seus pequeninos? Será por que Ele mesmo um dia abandonou o próprio filho?
Penso que crianças acreditam em Deus.
Meu olho desencantado não O vê nem entende por que Ele se cala diante de tamanha agonia. Os mistérios de Deus só não são mais terríveis que Seu silêncio. Meu olho desamparado chora feito criança.
Penso que crianças acreditam em Céu.
Espero firmemente que o céu se abra em portas de luz, e que nele habitem crianças sem cicatrizes, sem vestígios de assombro, dor e violência. Quero crer que essas meninas e meninos entrarão nos seus céus infantis e lá viverão livres das lembranças e limpas das marcas do mal.
Sim, há de existir um Céu para essa multidão de crianças que já viveu o inferno. Onde esses meninos e meninas para sempre cativos em sua infância interdita brinquem, a salvo, em campos de estrelas.