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Detesto Natal.
Não a Natividade, o menino Deus na manjedoura, o brilho da estrela guia, o silêncio dos pastores, a reverência dos animais e dos magos.
Detesto Natal.
Não o mistério da esperança, nem o Verbo encarnado, nem o drama da profecia realizada.
Detesto Natal.
Não o canto dos anjos, nem o espanto dos homens de boa vontade.
Detesto Natal.
Não a boa nova, nem a noite de paz, nem o manto de estrelas sobre um estábulo abandonado.
Detesto Natal.
Não os abraços sinceros, nem a alegria dos verdadeiros encontros e nem o aconchego das celebrações genuínas, despojadas de pompa e hipocrisia.
O que eu detesto é a loucura verde-vermelha de um Natal histriônico, vulgar, de risos forçados, cheques pré-datados, festas burocráticas, neves enlatadas, presentes compulsórios comprados com impaciência, cartões de crédito estourados, trânsito parado, vendedores grosseiros, bazares, listas, comilanças desmedidas e, o pior, a obrigação patética de ter que se sentir feliz porque é Natal.
Tenho muita preguiça de ser feliz assim.
É bizarro ver papais noéis grotescos, desenxabidos e suados fazendo soar campainhas e incríveis ho-ho-hos nas portas das lojas, nos shoppings, nas esquinas, nos jantares.
Houve um tempo, eu me lembro, que Papai Noel existia e a gente não via mas acreditava. Houve um tempo que só se ganhava um presente, um só, e ele ocupava nosso desejo, nossa imaginação e nossas brincadeiras até que outro Natal chegasse.
Sinto saudade dos natais da minha infância, que demoravam para chegar e duravam uma pequena eternidade. Um natal sem pressa, cheio de ritos e aconchegos. Havia um sopro de contentamento e graça, e eu cantava Noite Feliz a plenos pulmões, porque naquele lugar, naquela noite, com aquelas pessoas eu era, de fato, feliz.
Houve um tempo, eu me lembro, que os amigos eram todos verdadeiros, de carne e osso, e a gente sabia seus nomes, seus gostos, seu jeito e eram tão amigos que dispensavam presentes, solenidades, brindes e sorteios. Não havia amigo oculto, secreto, virtual, adotivo. Eram apenas amigos, com quem íamos à missa do galo, com quem dividíamos doces e a simples alegria de dizer: “Feliz Natal, Fulano!”
Acho triste os nossos novos natais. Não são Natal.
Acho triste o Natal das pessoas nas festas barulhentas, que não ouvem chorar o Menino Deus, nem os humilhados da cidade, nem tampouco o farfalhar das asas dos anjos ou a voz dos amigos. É triste o Natal das pessoas que não silenciam, nem rezam e nem têm natais antigos para lembrar.
Sinto falta dos natais inocentes da minha infância, quando as certezas eram simples e os sonhos, possíveis. Sinto falta da plenitude daqueles tempos quando eu não sentia falta de nada. Sinto falta de esperar pelo Natal e de sentir a agonia da esperança. Sinto falta de adorar o Natal e também de quem eu era, do que eu sonhava e de quem eu queria ser.
Sim, houve um tempo de natais simples e poderosos que fazem parte das lembranças sagradas. Eu me lembro.
E você, lembra de quem você era, com o que você sonhava e o que você queria ser quando era criança e adorava o Natal?