Capítulo 1
Desde os 15 anos trabalhava como doméstica em casas de família. Por oito horas, todos os dias, lavava, cozinhava e passava. Dona Guiomar, minha patroa, era muito boa. Todos na casa eram gentis comigo. Mas faltava algo. Já estava com 19 anos e não tinha namorado. Algumas amigas do colégio me incentivavam a sair. Dorinha, a mais antiga delas, era quem mais me estimulava. Ela costumava repetir: "É, Joana, vamos arrumar um marido para você, logo, logo...". Não gostava muito de festas e bares. Nas horas vagas, preferia ficar em casa, vendo televisão. Sempre adorei assistir às novelas. Aquelas mulheres bonitas casando com galãs maravilhosos. Eu me via nas cenas. Grinalda, chuva de arroz, padrinhos... Suspirava com tudo aquilo. Numa sexta-feira, minhas amigas me chamaram para ir a uma roda de samba. Era na quadra de uma escola, a uns 15 minutos a pé de onde eu morava. "Não sei se quero sair...", murmurei, enquanto Dorinha procurava no meu guarda-roupa um vestido bonitinho. Acabei indo.
Nunca tinha visto tanta gente. Eram umas oito da noite e o lugar já estava abarrotado. As meninas todas com roupas curtinhas. Eu não tinha coragem de usar aquilo, mas elas não estavam nem aí. Quando entramos, Dorinha achou umas amigas e formamos uma rodinha perto do palco. O sambão corria solto. Era bom ouvir aquilo e ver tanta gente se divertindo. Eu, que não era muito de beber, aceitei um copo de cerveja. Fiquei ensaiando uns passinhos e olhando o movimento. Do outro lado do salão, perto dos banheiros, estava um rapaz muito interessante. Cabelos pretos e um sorriso encantador. Ele conversava com outros garotos e, quando percebeu que eu o olhava, deu um sorrisão e comentou algo com eles. Envergonhada, virei para as meninas e disfarcei. "É hoje que a Joana casa!", brincaram minhas companheiras de farra.
No caminho, Danilo - até o nome era de galã de novela! - contou que estudava num colégio perto dali e que seu sonho era virar piloto de avião. Rimos muito daquela loucura até chegar ao meu portão. "Então, tchau", disse, desajeitada. Danilo pegou na minha mão, me roubou um beijo e saiu. "Tchau, lindinha!", falou, subindo a ruela. É claro que nem consegui dormir naquela noite!
Capítulo 2
No dia seguinte, encontrei um bilhete na caixa de correio de casa. "Já que você não me deu seu telefone, aqui vai o meu...", dizia, com um número logo em seguida. Quem assinava, claro, era o Danilo. Escondi a cartinha no bolso para que ninguém visse e toquei meu trabalho. A casa estava uma sujeira só mas, por sorte, todos iam passar o fim de semana fora. Era minha chance para telefonar. Esperei até o início da tarde. Não queria parecer fácil. "Danilo falando...", ouvi, logo que ele atendeu. Bateu uma timidez repentina e senti vontade de desligar. Mas já que estava na chuva... "É a Joana... da quadra de samba...". Ele disse um "que bom que você ligou" tão caloroso que me deixou mais tranqüila. Contou que assim que nos despedimos havia lembrado que não tinha meu telefone. Então foi até a caixinha e deixou o dele.
Conversamos durante um tempo até que ele sugeriu da gente se ver de novo. Como estaria de folga no dia seguinte, topei. A noitinha, Danilo me pegou e fomos para um bar. Conversamos muito. Notei que meu par fazia esforço para parecer simpático quando eu falava do meu tema favorito: novelas. Ele fez questão de pagar a conta e me levar de novo para casa. Na hora de nos despedirmos, senti um misto de desejo e medo de perdê-lo. Agarrei-o e lhe dei um beijo na boca. Foi a coisa mais gostosa que senti em minha vida. Quando notei uma luz acendendo na janela da vizinha, tomei coragem e o convidei para entrar. No sofá, continuamos nos beijando num fogo só. A mão dele começou a passear por meu corpo... Quando quis levantar minha saia, eu o interrompi. "Vamos parar por aqui porque meus patrões vão chegar de madrugada", disse, mentindo. Ele sorriu e me deu um outro beijo antes de sair. Estava apaixonada por um homem que compreendia meus sentimentos! E que ia entender quanto eu lhe contasse que ainda era virgem.
Ficamos um mês nesse namorico. Íamos a barzinhos, a cinemas e à quadra de samba. A cada dia achava que nos descobríamos mais e que nada nos impediria de ser feliz.
Capítulo 3
Num sábado em que meus patrões, para variar, haviam viajado, tocou a campainha. Estava relaxando já que o Danilo só viria me buscar duas horas mais tarde, mas fui ver quem era. "Pois não?", disse a dois rapazes muito bem arrumados. Um deles segurava um ramalhete de flores. "Mandaram para a dona da casa, só precisa assinar aqui...", apontou o mais alto. Pensando no quanto Danilo tinha sido romântico, abri o portão. Estava tão concentrada, imaginando como eu o beijaria em agradecimento, que, quando percebi a farsa, já era muito tarde. "Cala boca vagabunda... tu acha que merece flores, né?!", gritou o baixinho me arrastando, com a mão em minha boca, enquanto o outro fechava o portão. Tentei fugir, só que ele era muito forte. Quando quis gritar, tomei um tapa e caí no chão. Na hora que olhei para cima, vi o revólver. Nervosa, comecei a choramingar: "Pelo amor de Deus, não tem nada aqui, a patroa está viajando...".
Eles me levaram para dentro. Enquanto via os eletrodomésticos, jóias e até a comida da família sendo jogados em um grande saco de lixo preto, percebi que eles não estavam ali só pelo roubo. "Gostei dessa baixinha aí...", resmungou um deles, olhando para mim maliciosamente. Pensei em correr, mas ao me mexer levei uma coronhada na cabeça. Tonta, fui carregada para o andar de cima, já sem forças. Eles me jogaram na cama dos patrões e arrancaram minha roupa. Toda vez que pensava em gritar, ganhava um tapa.
Enquanto me estupravam, os dois riam e me humilhavam. Levaram, com a maldade deles, a coisa mais pura que eu guardava. Sentia nojo, asco e revolta. Parecia um pesadelo. Piscava os olhos com força para ver se acordava. Mas nada aconteceu. Era real. Tinha entrado no inferno pela porta da frente. E meu anjo Danilo, em algum lugar, nem podia imaginar o que estava acontecendo comigo. Talvez, como nas novelas, ele pudesse ser meu herói, me salvar. Quem sabe não chegaria logo e colocaria os dois para correr? Fiquei chamando Danilo mentalmente, com todas as minhas forças. Mas ninguém apareceu. A única claridade que via era do lustre do quarto. Ele balançava, balançava, milhões de vezes, até que desmaiei, envolvida em minha agonia.
Capítulo 4
Acho que a porta bateu na mesma hora em que perdi os sentidos. Acordei algum tempo depois com o Danilo tentando me reanimar. "O que foi? Pelo amor de Deus, o que aconteceu?", repetia, enquanto eu, zonza e em estado de choque, nem sequer conseguia olhar para ele. Danilo ligou para a casa de praia de minha patroa, dona Guiomar, e ela disse que viria o mais rápido possível. Quando chegou, 1 hora e meia depois, eu ainda estava sentada na cama, chorando. Minhas mãos trêmulas mal conseguiam segurar o copo de água com açúcar. Meu corpo doía inteiro. A roupa estava rasgada e suja. Mas eu me sentia ainda mais imunda. Fiquei com nojo de mim mesma. Era como se meus membros não me pertencessem. Tinha a sensação de que havia sido jogada num esgoto e resgatada em seguida. Dona Guiomar me levou para o banheiro e devagar, tentando tomar cuidado para não tocar nos machucados, ajudou-me a tomar um banho.
Eu não parava de chorar. "E agora? E agora?", eram as únicas coisas que sabia repetir. Dona Guiomar ligou para Renata, sua filha, que fazia estágio numa maternidade, para saber o que fazer. "Calma, Joana. Vai dar tudo certo, calma", eles repetiam. Eu só chorava. Sentia falta de uma família, de alguém que pudesse me abraçar e me fazer esquecer todo aquele horror. "Nós vamos para a Delegacia da Mulher, ok?", disse Renata quando chegou. Tentei protestar porque, afinal, não era eu quem precisava ir para a delegacia. Mas, desanimada, deixei que me carregassem até o carro. Fiquei imaginando policiais truculentos tirando sarro da minha cara. Quando entramos numa pequena sala, tudo pareceu tranqüilo.
Logo uma moça veio ouvir meu relato. Foi paciente e me encorajou a contar tudo. Alternando choro e ódio, falei do que lembrava.
"Nós vamos tratar de seu caso, mas o mais importante agora é retomar a sua vida, menina", ela disse, e entregou à dona Guiomar um papel com o endereço de um ambulatório especializado em receber vítimas de violência. Mais tarde, fiquei sabendo que haviam mais de 50 como aquele no Brasil e que, para saber onde eram, a gente precisava só se informar num posto de saúde. Uma psicóloga conversou comigo e fiquei mais relaxada. Depois, fizeram uma série de exames meio desagradáveis. Mas fazer o quê? Pelo menos as médicas eram todas mulheres, então não passei muita vergonha. Acima de tudo, pensava em milhões de coisas. Todas ruins. Na minha virgindade perdida, na reação do Danilo, que me olhava assustado e não dizia nada, na minha família, em tudo.
Capítulo 5
Esta aqui é o que chamamos de pílula do dia seguinte", disse a médica, me entregando uma caixinha. "Serve para evitar que você fique grávida. É de graça." Ela também entregou outros comprimidos. "Durante 28 dias você tomará esses remédios. Isso é um coquetel anti-HIV. Nada vai acontecer com você, Joana, mas é importante seguir a receita à risca para não ficar doente, ok?" Tremi só de imaginar a possibilidade daqueles desgraçados terem me transmitido Aids ou uma doença venérea.
Quando saí do ambulatório, o Danilo, que havia esperado do lado de fora, se juntou a nós. Quieto, ajudou-me a ir até o carro. Nas semanas seguintes, estive amuada. Ficava a maior parte do dia na cama, sofrendo com os efeitos colaterais terríveis daquela medicação. Me disseram que se eu deixasse passar 72 horas após o estupro sem tomar aqueles remédios poderia ter contraído alguma doença ruim. Graças ao bom Deus contei com o apoio de todo mundo. Apesar de destruída por dentro, sentia-me grata às pessoas ao meu redor. Com o coração na mão, três meses após o término dos remédios fiz novos exames. Tudo negativo. Sem gravidez, Aids ou qualquer outra coisa. Chorei de alegria por saber que tinha superado tudo. Quer dizer, quase tudo.
Aos poucos minha vida foi voltando ao normal e eu retomei todos os meus afazeres domésticos. A casa agora tinha dois olhos mágicos, além de um portão mais alto e reforçado. No dia-a-dia estava tudo bem. Porém, algo ainda me afligia.
A idéia de ser tocada por um homem me incomodava demais. Danilo percebia isso. Toda tentativa de me beijar ou de me acariciar como antigamente, fazia com que eu descambasse em choro. Estava ainda muito traumatizada. Precisava mais de carinho do que de sexo. E ele não entendia isso. Passado um mês, começou a aparecer menos em casa. Até que um dia eu o vi com uma mancha no pescoço. Dessas de beijo. E não era minha. Após uma discussão, outra tristeza em minha vida. Danilo me deixou, dizendo que eu havia me tornado frígida. E que ele não tinha culpa disso. Não mesmo, mas, quando se foi, me senti violentada de novo. Dessa vez, nos meus sentimentos.
Capítulo 6
Depois de seis meses, eu tinha minha alegria de viver de volta. Estava bem, sem doença alguma, e me sentia feliz porque Deus ficou ao meu lado num momento tão difícil. E também por minha patroa e a filha dela, que me levaram aos serviços de apoio a vítimas de estupro. Mas, às vezes, ainda me lembrava do Danilo e de suas juras de amor eterno. Quando mais precisei dele, nos momentos mais complicados depois do que sofri, ele me trocou por outra. Safado miserável!
Às vezes, na hora do banho eu me olhava no espelho, ficava admirada. Ainda era nova, bonita. Mas ao pensar numa mão forte me tocando, me sentia enjoada. Era como se todos os homens do mundo naquele instante quisessem se aproveitar de mim. Algumas vezes deixava o chuveiro ligado para abafar meu choro. Não queria que ninguém mais tivesse pena de mim. Apesar do sofrimento, ia me reerguer.
Minhas amigas voltaram a me chamar para sair. Fiquei receosa no começo; depois percebi que a solidão aumentava a tristeza. Comecei a sair de vez em quando. Numa sexta à noite, topei ir a um bar com elas. Estávamos sentadas lá quando uma voz suave, vinda de um rapaz lindo, me perguntou o que eu queria tomar. Tremendo, pedi um guaraná. Ele sorriu. Minhas colegas perceberam o flerte. Fazia tanto tempo... Durante toda a noite, enquanto ele atendia as outras mesas, me fitava de canto. Eu retribuía com sorrisinhos. Na lapela de seu avental, havia um crachá com o nome: Fernando. Ele não tinha cara de tarado. Talvez me achasse bonita, e só. Na hora de pagar a conta, eu já estava mais desinibida, graças a umas cervejinhas, e fiquei olhando para ele.
"Deixaram isso para você", disse Fernando, enquanto recolhia a gorjeta da mesa. Me entregou um bilhetinho e logo saiu. Todas as meninas vieram em minha direção: "Nossa, que gato! Ele deu o telefone?" Sorri sem graça e guardei o papel no bolso. Já tinha visto aquele filme antes. Passei a semana pensando nele, querendo ligar. Fernando, Fernando, Fernando. Aquele nome não me saía da cabeça. Achei que havia sido amor à primeira vista. Mas fiquei com medo. Será que ele entenderia o que eu estava passando? E teria paciência para esperar minhas feridas espirituais cicatrizarem?
Capítulo final
Não demorei muitos dias para telefonar para Fernando. Liguei no meio da tarde, na hora que imaginei que os garçons da noite começassem o trabalho. Meu coração batia forte, mas se tranqüilizou quando a moça que atendeu foi chamá-lo. Ele ficou surpreso, mas parecia feliz. Marcamos de pegar um cinema na folga dele, sábado. Esperei aflita até o dia chegar. Me perfumei, coloquei um vestido que não usava desde os tempos que freqüentava a quadra de samba e fui encontrá-lo no shopping onde fica o cinema.
Lá estava ele. Nossa, como Fernando parecia diferente sem o uniforme! Mais bonitão, charmoso. Ele foi gentil, pagou meu ingresso e, durante o filme, que era bem romântico, nem sequer encostou em minhas mãos. Respeitador! Quando acabou, perguntou se eu o deixaria me levar até em casa. Aceitei, pois ele me parecia de confiança. Logo que entrei no carro, que não era muito novo, mas tão cheiroso quanto o dono, ele suspirou: " Tenho pensado muito em você, menina. Mais do que podia imaginar..." Falando isso, pegou nas minhas mãos. Eu tremia. Não podia ignorar alguém que me interessava. Em vez de deixar ele me beijar, como queria, comecei a chorar.
Percebendo meu desespero, Fernando me ofereceu o ombro. Entre lágrimas, contei todo o meu drama. Confiei profundamente nele e abri o jogo. Falei desde o estupro até o fora do Danilo.
A cada palavra, ele me fazia carinhos no cabelo e dizia: "Eu entendo... eu entendo..." Mesmo envergonhada, levantei meu rosto de seus ombros e o encarei: "Entende mesmo? Você seria capaz de dar tempo ao tempo?", perguntei. Ele pegou minhas mãos e as beijou ternamente. "Sim", respondeu.
Recomecei a chorar, mas dessa vez de alegria. Depois de tudo, achara alguém que compreendia o que eu sentia. Quando me deixou em casa, respeitosamente me beijou novamente as mãos e disse que me ligaria no dia seguinte. Mal dormi à noite. O dia passou e nada. "Fernando ficou com dó de mim e deu no pé...", lamentei. Às 6 horas, o telefone tocou. "Menininha, só liguei para dizer que te gosto muito...", disse ele, com sua voz grave. Aquilo soou como uma dessas músicas de filme romântico que aparecem no final. Aquelas que fazem a gente se arrepiar. Passamos quatro meses saindo. Aos poucos, permiti que Fernando me beijasse, me fizesse carinhos. Lentamente, fui redescobrindo a mulher que eu era. Tudo correu tão bem que finalmente transamos. Difícil explicar o que senti. Algo muito bom e diferente daquele nojo que os desgraçados me provocaram no passado. Meu amor foi terno comigo. Não me machucou, não me forçou a nada.
Na manhã seguinte à transa, ouvi batidas na porta. Como estava sozinha, hesitei. Me aproximei do olho mágico e vi Fernando com um buquê de rosas. Abri a porta e sorri. Sorri para o homem que, no mesmo dia, me pediria em casamento e me faria feliz para sempre.