Paulo Autran se foi, mas deixou o exemplo de homem que era. Rezo para que novos talentos não sejam sufocados pela modernidade
Sozinha aqui em minha cozinha, estou com uma imensa sensação de perda, de luto na alma, como há muito tempo não sentia. Existem artistas que a gente admira pelo talento, mas sabe que o caráter não é recomendável; outros têm talento menor, mas muita dignidade.
Sempre acreditei que caráter e talento não necessariamente andam juntos. A não ser que o artista em questão seja Paulo Autran. Me sinto, neste momento em que ele fechou os olhos para o mundo, sem chão. Naquele corpo, existia um homem por inteiro. Íntegro, honesto, elegante e honrado. E, como se não bastasse, o maior ator brasileiro.
Tive a honra de entrevistá-lo muitas vezes. Sempre foi gentilíssimo. Jamais enviou um olhar preconceituoso para a apresentadora caipirona que eu era. Ao contrário, sempre fazia sugestões com delicadeza. Nunca teve uma atitude mal-educada se a gravação do programa demorava. Discretamente, esperava. Aliás, a discrição era outra qualidade sua. Ele jamais se portou como celebridade, jamais se deu ao desfrute de posar de grande astro. E ele era o grande astro! Sabia o quanto valia, por isso era discreto. Tão discreto que partiu em um feriadão quando todo mundo estava viajando. Certamente, ele odiaria “o desfile do último adeus”.
Na cerimônia de cremação, sua verdadeira família estava lá. Todos os grandes talentos do teatro, de Bibi Ferreira a Juca de Oliveira. A amiga Tônia Carrero, a companheira Karen Rodrigues; todos juntos, solenes e amargurados, como que antevendo o fim da era em que o talento era reconhecido.
Alguns heróicos atores lutam para manter a qualidade e a dignidade no teatro e na TV. Temo que os novos tempos sejam imediatistas. E que poucos talentos, como o de Paulo Autran, sejam sufocados pela mediocridade. Acho que estou ouvindo aplausos... Não. São as asas de anjos se agitando pela passagem da alma de Paulo Autran.