Técnicas e dicas que ajudam você a encontrar o equilíbrio no dia-a-dia
Confira nossa seleção e divirta-se!
A vitrine expõe objetos fascinantes, irresistíveis, muito melhores e mais perfeitos e complexos que seus modelos do ano passado, que já eram muito mais modernos que os primeiros modelos lançados no ano retrasado. O objeto que não existia há um ano e meio já nasce velho. O objeto, que nem existia, torna-se indispensável e vital até ser substituído por outra maravilha fabulosa, febril, cintilante, que ainda virá a existir para logo depois evanescer.
Devoramos tudo: máquinas, lugares, gentes, crenças. Consumimos emoções instantâneas, efervescentes. Mastigamos certezas retumbantes para logo depois expeli-las. Instalamos valores novos, adequados a tanta velocidade, para depois deletá-los. Inventamos uma nova ética etiquetada e fragmentada a cada download. Trocamos de modas e modos. Vorazes, consumimo-nos diante da vitrine reluzente de ouro de tolo.
Caminhamos empanturrados de acessórios, gadgets, marcas, chips, gorduras, luxos. Caminhamos abarrotados de informações inúteis, químicas, magos, fórmulas, modismos, desejos. Seguimos cegos, ocos, perplexos. Enlouquecidos de tanto buscar sentido nas coisas. Desencantados pois não ouvimos o poeta dizer que as coisas não possuem mistério nem sentido algum. Seguimos atônitos, vazios, diluídos na efemeridade. Ávidos por novidades, salvações, soluções fáceis, feéricas, lúbricas. Loucos por sensações. Certos de que felicidade existe, que custa tanto, dura tanto, escorre pelo ralo, desce goela abaixo, desfaz-se em orgasmos múltiplos e logo se entristece. A vitrine é histérica e estéril. A vitrine está em constante agonia. As novidades logo serão sucata.
E o novo?
O novo passeia lá fora disfarçado em arte, natureza, idéias.
A verdadeira novidade é aquilo que não envelhece, que se perpetua no tempo. É aquilo que o eterno toca e nos emocionará sempre. É a centelha do atemporal no fugaz, no inusitado, na vanguarda, no ousado. Novo é experimentar o que sempre existiu como se fosse a primeira vez. É comover-se com o que o coração percebe como inédito, não importa o quão velho ou atual seja. É deslumbrar-se com um pensamento, uma idéia, uma obra como se fosse uma revelação, só porque, de repente, ela se traduz em entendimento.
Novo é Hamlet com Wagner Moura. Novo é Platão. Novas são as palavras no dicionário e a arte nos muros da cidade. Novo é intuir que Chaplin faria rir as crianças nas praças medievais e que os massais ouviriam Pink Floyd com reverência. Novos são os jovens cientistas tentar entender a mente de Deus. Novos são os mitos e as rupturas. Novas são as estações do ano, os ciclos da lua, as fecundações, as colheitas. Novo é saber que os meninos índios e os da cidade sonham sonhos iguais. Novo é apaixonar-se para sempre. Novo é o sagrado e a co-autoria do homem na Criação. Novo é gerar filhos e proteger a Terra.
Novidade é ver o tempo passar e capturar o eterno para muito além das vitrines torpes, das buscas sôfregas, dos antidepressivos, das tecnologias e das vanidades.
Novo é caminhar sobre o mundo como no começo dos tempos.