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Coluna de Hilda Lucas

Entre a Vida e a Morte

...“Aí está a mulher que me levou pro altar e que, depois de me seduzir com graças de virgem descarada, gerou filhos meus, mas, sobretudo, seus e eu nunca mais a tive só para mim. Seus, nossos filhos... Dádiva, fosso, rivais, anjos, demônios. Seus, nossos filhos, saídos das suas entranhas de terra, de sangue que sorviam seu leite, consumiam seu tempo, transformavam seu corpo e detinham o controle absoluto dos seus sorrisos. Seus, nossos filhos, tão lindos, tão nossos, tão absurdamente extensões suas.

Tiravam tudo de você porque eram você, feitos da sua carne, dos seus sonhos e, à noite, te devolviam exausta, exaurida e incrivelmente feliz, drenada de seivas, energia e amor. Você deitava cansada, vestida, e me olhava com olhos de mãe. Não havia mais a cadela fogosa. Você não tinha mais cheiro de fruta madura. Você cheirava a lavanda infantil, a golfada, a hipoglós. E o sexo era interrompido por choros, mamadas, pressentimentos e eternos levantares da cama para cobrir um, dar xarope para outro, fechar janelas em noites de vento, velar febres, pesadelos e manhas.

E você se dividiu e me excluiu e me preteriu. Não fazíamos mais amor sobre a mesa, muito menos na capela. Não dormíamos mais nus no chão, nem rolávamos nos cafezais. De repente, uma ternura fraternal invadiu nosso sexo e eu fui tomado por uma espécie de respeito, reverência porque você era agora a mãe dos meninos.

Os meninos estavam por todo canto, principalmente na sua cabeça. A maternidade foi devastadora na sua vida. Quer dizer, na minha vida. Enquanto você crescia e inflava como se fosse terra plantada, eu murchava e me encolhia num canto. Daquele canto, comecei a olhar as outras mulheres, todas as mulheres. Queria todas. Culpava você por aquele desterro.

E assim passaram-se os anos, eu traindo você e você feliz da vida, plena, cercada por filhos, mamadeiras, brinquedos e problemas infantis, desatenta e inocente. Segura do meu amor, distante do meu desejo. Não mais minha amante, de repente, madona, amiga, distante. Quando você se deu conta eu já estava de partida. Ainda lhe vejo parada na porta do quarto, perplexa, lívida me vendo sair sem mala, sem medo. Não nos dissemos nada, lembra?

O mal-estar foi quebrado por um grito de “Mãêêêê!!!” e até naquela hora você atendeu. Saiu correndo em direção ao grito e então foi a minha vez de ficar perplexo. Saí sem beijar meus filhos, sem fechar a porta, sem pegar dinheiro na gaveta. Saí sem olhar para trás. Você não estava lá para me ver. Naquele instante, parece loucura, eu me senti abandonado, tudo se inverteu, você roubou a cena ao sair para acudir um filho.”...

Trecho do livro inédito Entre a Vida e a Morte, de Hilda Lucas



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30/05/2008 - 16:55



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