O que você faz para tirar seu filho da frente da TV?
O que deixa você apaixonada?
Quem seu filho idolatra e por quê?
Existem momentos que não importa o quão breves ou longínquos, justificam toda uma existência. São pausas diminutas no tempo, notas suspensas, insignificâncias que se percebidas não mudam cursos nem ventos apenas o tamanho da sua presença na capturada eternidade.
Não se ouvem sinos nem coros celestiais, não há prenúncio, nem premonição. Nada lhe é anunciado em oráculos, transes, epifanias. O dia não amanhece diferente e na sucessão das horas não há nenhum indício do extraordinário. Não há preparo. Esses momentos são uma quebra no compasso, um suspiro cósmico, um lampejo. São brechas que exibem um estado clarificado, desnudado, do viver.
Não há retumbância, nem pompa. Não há nada de excêntrico nos momentos preciosos. Eles são comoventemente simples e o milagre é percebê-los embora o grande desafio seja estar neles. (Afinal, são tantas as dispersões, são tantas as expectativas de arroubos grandiosos, que o despojamento desses momentos parece uma cilada...)
Não é como nos filmes, não haverá trilha sonora, nem palavras impactantes, nem encontros lacrimosos. Não há diretores, nem figurantes, nem platéia. Não existem agentes nem sócios. Momentos perfeitos são solitários. Não existe o outro, só você. É como nascer ou morrer: pessoal e intransferível, pura solidão. Entrega e inocência. Inteireza.
Um dia voltei à minha terra. Não digo cidade natal, não digo lugar onde nasci. Um dia voltei à minha terra e percebi isso quando sentada no alto de uma colina reconheci não a passagem, mas todo o universo. Eu simplesmente conhecia o jeito do vento soprar, o farfalhar das folhas, o sussurro morno com cheiro de sal, os dedos de ar que despenteavam meus cabelos, o toque da brisa sobre a pele quente.
Eu sabia das ondas incansáveis, diligentes, formando longos terraços de água, esculpindo um relevo inconstante e extraordinário, como se o mar avançasse em camadas que se sobrepunham até a diluição do beijo na praia. Sabia de toda vida submersa que mesmo invisível, pulsava, existia, estava lá, como eu. Sabia como a espuma se espalhava sobre a areia lisa.
Sabia buscar as nuvens refletidas na superfície espelhada do chão e reconhecia as volutas da renda formada pelas espumas. Presumia o tapete feito de conchas de todo tamanho e os milhares de furos e bolhas de ar que os tatuís deixavam ao se esconder.
Sabia das estrelas-do-mar encalhadas a fitar o firmamento e do azulado do horizonte, indistinguindo céu e mar, terra e eu. Reconhecia a dança das palmeiras que como leques enormes brincavam de esconder o sol, a filtrar raios incandescentes.
Sabia que o entardecer seria rosado e dourado, uma festa de nuvens fabulosas como navios de vapor a singrar, placidamente, mares de ar. Ouviria ou não os bem-te-vis mas saberia que eles estavam lá. Haveria talvez uma lua branquinha, ainda sem brilho, com jeito de nuvem, diurna, curiosa. Vênus apareceria, de repente, como um farol que se acende e arrastaria consigo uma multidão de estrelas.
Sabia como o sereno cairia quietinho, salpicando a grama, como os grilos cantariam e como ardiam as picadas das muriçocas. Eu simplesmente era tudo aquilo, estava lá, acontecendo como fluxo, átomo, coisa viva. Despida das minhas construções e convicções, reduzida, nadificada.
Nunca fui tão viva. Nunca fui tão pouco eu, essa ilusão tão bem arquitetada e munida de certezas, referências e códigos. (Apenas o nascimento das filhas me deu essa dimensão tão simples e conciliadora: o exercício da diluição, do pertencimento. Mas eu era jovem demais para entender o tamanho da revelação, ainda acreditava que todos os créditos fossem meus...)
Um dia voltei para o lugar onde nasci e vivi tudo e só isso. Nem nostalgia, nem misticismo, nem invencionices de poeta. Era só quietude e respiração, um momento breve que tudo revela num simples fechar ou abrir de olhos e poros. Olhos sem véus, poros sem filtros.
Lá estava eu, sendo tudo aquilo, respirando vento, maresia, pôr do sol. Lá estava eu, inteira e diluída. Parte do todo, por toda parte, partícula de tudo. Lá estava eu, no meio do azul, coberta de espuma, ouvindo o segredo das palmeiras, a risada das estrelas e o marulho das ondas. Eu era paisagem, passageira e partícipe. Nota solitária, sinfonia. Lá estava eu, desimportante, sendo.
Trago comigo, bem guardado, esse momento, feito de descortinares e vislumbres, feito de tudo e de nada, feito de mim e do que me cerca e me percebe, despido de mim e do que me aprisiona. Feito do que me revela e me significa.
Feito da ausência de espera e da inocência das partículas que dançam ao acaso. Feito do fugaz e do eterno. Breve e perfeito, um quase lugar, nem pequeno nem grande, do tamanho certo para caber minha alma cansada, peregrina, para onde retorno sempre que me sinto asfixiar.
Um dia voltei para minha terra e, num átimo, encontrei o universo.