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Coluna de Hilda Lucas

A Terceira Margem do Rio - Querência


“Menino, tira o olho do rio.”
A mãe falava por trás da roupa no varal.
“E que mal tem? É só um rio e meu olho gosta.”
“Êta, que menino mula! Cê sabe que nem tudo que se parece com as coisas são elas mesmas. Isso parece um rio igual a todos mas não é.”
“Que parecença é essa que não é de se jurar?”

A mãe ficava quieta porque ela também não sabia dizer o defeito ou o bendito do rio. Tudo que ela sabia era de ouvir a mãe dela dizer e antes da mãe dela, a mãe da mãe dela. E o que ela sabia era tão sem saber que era como se nada soubesse.
“Esse rio é encantado. Dentro dele não tem peixe, nem pedra rolada, nem cobra d’água, nem piaba. Dentro dele só tem palavras.”

E assim dizendo me olhou como se tudo houvesse dito e eu fiquei parado esperando o que não foi. As palavras. De longe o rio me assuntava e eu entendi num instante que as palavras estavam todas lá dentro, estavam os nomes de todas as coisas e de tudo o que se sente. Todas as palavras. As que minha mãe não dizia. As que eu pensava. As que eu nem sabia que existiam. As que só os juízes e padres falam. As palavras que os anjos sopram quando se nasce ou se morre. As palavras, as palavras, todas elas. Mudas, fluidas, lisas. Submersas, viajantes.

Entendi num instante porque eu esquecia do tempo no barranco do rio. Ficava lá, olhando a água escura de não se ver o fundo, e ficava tendo idéias desatinadas, novas, que eu nem sabia por que tinha. Entendi logo que eu não tinha idéia nenhuma, nem pensamento meu. Eu ouvia as palavras falando comigo. Por isso que na minha cabeça entravam palavras que só eu sabia pronunciar, como se fosse um possuído.

E as palavras, elas, me rodopiando os ouvidos, se exibindo nuas do meio do rio, acenando idéias, lugares e sabores. E eu imaginava se burnó era um tipo de tamborete e genepi era um nome para se chamar minhas partes de baixo.  

Tirei da cabeça o medo da loucura. Eu não inventava nada. Eu só ouvia o rio falar. E a loucura deu vez ao destino. E eu achei um buraco no barranco, debaixo da raiz dum pé de fruta-pão e me enfiei lá dentro como um bicho no oco da árvore. Eu no oco da terra, fugido de escola, de catecismo, de sopa e surra. Só, mais o rio.

E aquelas palavras assanhadas a se amostrarem feito fruta viçosa. Musselina devia de ser uma flor, cor de rosa, com certeza. Neófito, o bicho que dá na goiaba madura. Prosopopéia é trovoada e fênix o lugar mais bonito de se ver, cercado de um rio feito só de água, peixe, pedra rolada, cobra d’água, piaba.

Lá pros lados de Fênix eu sabia sem saber, todo mundo tomava banho no rio, as mulheres pariam dentro d’água e as casas flutuavam no ir e vir daquelas águas sem maldição. As águas do rio de Fênix eram caladas, só água. Quem falava lá era gente e a gente entendia tudo. Lá em Fênix não ficava nenhuminha palavra presa na garganta de ninguém, arranhando o pensamento, despertando o sono. Tudo era dito, lindo de se ouvir e de se entender.

De dentro do meu oco de terra eu crescia e via o rio passar palavreando, falador. O rio sabia que eu já tinha mais tino e me tentava com palavras mais tinhosas. Exéquias, idílio, mironga, neurose. E eu ficava dando corpo às palavras, conversando com elas e, quando não fazia isso, ficava imaginando Fênix e tinha uma vontade doída de ir pra lá, uma saudade de tudo que havia de haver de acontecer quando lá chegasse, um comichão pra nadar naquele rio só rio.

A vida e o rio passavam e eu nem cabia mais no oco da terra e Fênix mal cabia na minha cabeça de tanta imaginação inventada. Lá era meu lugar. Ficava quieto só querendo ir pro lugar que ficava depois desse rio falante, depois do pé de serra, depois do açude, depois de depois, do lado de lá, um nunca se viu de lugar, que não tem norte nem sul.
Passei a vida assim. Parado querendo, devorando palavras, sendo engolido por elas. Já nem ligava mais muito não. Tinha dias que nem lia uma palavra sequer.

Mas um dia, como é do conforme de todo milagre, na hora do lusco-fusco apareceu a palavra do meu destino. Saiu do rio feito uma Mãe d’Água, toda brumosa, molhada, nova. Parecia o começo do mundo. Uma formosura  que nunca houvera naquele rio. E, que nem a Mãe d’Água faz com seus amores, me estendeu os braços e quase juro me sorriu. Lá no meio do rio imensa brilhante. Pela primeira vez foi a palavra que se explicou e me decifrou o coração:

QUERÊNCIA,
que quer dizer: volte para Fênix, de onde você jamais deveria ter saído.
Sem precisar de adeus ou saudade deitei a trilhar meu caminho de volta. Cumpria minha sina. Na bagagem só outras palavras.
Querência s.f. (s.XIII) – MG, RS – lugar onde o animal nasceu, foi criado ou se acostumou a pastar, e para onde volta por instinto, se dali for afastado.



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17/04/2008 - 23:37