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Coluna de Hilda Lucas

Os loucos que não somos


Por detrás do vidro fechado e apavorado do carro não olho a cidade. Saio sem ver nada. Do lado de lá do vidro tudo é tão longe que a vista nem alcança. Deslizo cega pela cidade que é cinza como as páginas de um jornal.

A cidade lá fora é hostil, indiferente. E eu aqui dentro, sou igual, hostil e indiferente, não me perturbo, não me movo. Assisto a tudo impassível.

Foi de dentro do meu carro, protegida por blindagens de todos os tipos, refém de um engarrafamento, que eu vi: numa praça inventada, sem árvore sem nada, uma praça triste, ladrilhada, uma mulher num balanço. Não era uma mulher qualquer. Ou melhor, era uma mulher qualquer inventando uma cena incomum. Era uma moradora de rua, trajando um inusitado vestido de noiva, ostentando um véu roto, encardido e incríveis meias de renda branca. Traçava com graça e leveza um vôo solitário de passarinho esquecido. E eu podia ver que ela gargalhava, entregue e rendida, ao desatino, ao delírio, à alegria de ser noiva de um amado feito de nuvem.

A cena era bela e cruel. Quadro vivo do Chagall numa praça asfixiada pela cidade. Uma noiva a voar seu sonho desvairado, sua inocência ultrajada, sua sina mal traçada.

Do balanço ela foi para um brinquedo de barras de ferro. E lá executou inúmeras vezes o percurso das traves paralelas, num vai e vem destemido, desafiando alturas, gravidade e a fraqueza dos músculos.

Lá estava ela, pendurada como uma roupa que dança alegre no varal. Meio noiva, meio farrapo. Meio doida, meio liberta. Indiferente aos olhos das gentes, exibindo-se para o noivo imaginário, dançando para a cidade inóspita, expondo-se para um deus sisudo. Lá estava ela, desdenhando da loucura, da miséria e do desatino de não ter mais destino.

Mais que a violência, a loucura da cidade me comove por que loucura não é coisa distante feito notícia de jornal, não respeita vidros fechados nem casas trancadas. A loucura é o inimigo íntimo, que espreita atento como um vírus oportunista, uma víbora. Mora dentro de nós, quieta, paciente. Às vezes sentimos seu hálito, ouvimos seu canto de sereia, vislumbramos seus abismos. Às vezes ficamos muito próximos de ter o avesso exposto, a corda partida, a alma estilhaçada. Quando ela se retrai e adormece novamente, respiramos aliviados, salvos, não sem antes nos darmos conta do quanto somos sós e precariamente sãos.

Quando a cidade expõe suas feridas, é a loucura que mais me afeta. São as noivas insanas, os heróis desvalidos, os que falam sozinho, os que choram alto, os que dormem nas ruas, os que dançam no asfalto, os que exibem sua nudez imunda, os que comem lixo, os que catam trapos, os que se crêem Deus, os que não se sabem santos, os que se buscam nas noites frias e trepam desesperados, os que não lembram o próprio nome, os que nos matam, os que morrem queimados, os violados, os que pedem livros, os que se perdem em asilos, os possuídos, os predestinados, os mansos, os que adotam cães vagabundos, os que furam os olhos dos gatos, os furiosos, os fedidos, os que gritam nas igrejas, os que nos cospem na cara, os obscenos, os tarados, os proscritos, os desperdiçados, os órfãos de tudo, os esquecidos, os anônimos, os invisíveis: os outros.

Dispersos pela cidade, são o tumor infame, o verme do fruto, os ratos dos esgotos, a horda dos excluídos, feridos, espectrais, os nossos loucos, os loucos que não somos, que o são por nós.

A noiva desgrenhada na praça inventada de uma cidade cinza é um quase delírio, uma quase revelação. Penso nas danças que não dancei e nas risadas que tranquei, penso nas dores curadas e nas trevas vencidas, nos porquês, nos senões, nas sentenças injustas, nas bênçãos não merecidas, nos triunfos, nas dádivas, nos dados lançados, no sorriso da sorte, nos passos mal dados. Tudo é aleatório e fortuito. Pequenos detalhes, nuances, escolhas inocentes, acidentes genéticos, equações químicas, circunstâncias ermas nos colocam em lados diferentes. Porque eles e não nós?  Penso em caminhos emaranhados e destinos inclementes, entendo que uma linha muito fina, muito tênue nos mantêm fragilmente sãos e salvos.

Olho com ternura a mulher no balanço, me entrego ao seu devaneio, às suas piruetas, à sua risada de eleita, à sua dança redentora e assim, no meio do vôo, abraço a louca em mim.




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17/04/2008 - 19:41